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Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

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Seis sintomas de doença de Crohn que não pode ignorar... ou deve?

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Hoje, numa das minhas idas ao wc para despejar a tripa cruzei-me com um texto (nem sequer lhe consigo chamar noticia) intitulado "Seis sintomas de doença de Crohn que não pode ignorar". Ora, por curiosidade e por ter todo o tempo do mundo para ler no wc, cliquei. E li. E até senti a minha tripa a ter uns espasmos involuntários (que ajudaram a despachar-me mais rápido) com o alarmismo e ignorância com que me deparei.

Vamos por partes e tiremos o nosso tempo para dissecar o que por ali foi dito. Se estiverem no wc, este post é uma excelente companhia.

 

 

1) "A doença de Crohn é crónica e provavelmente provocada por desregulação do sistema imunitário, ou seja, do sistema de defesa do organismo"

Ora, de facto a doença de Crohn é crónica, assim como todas as doenças do grupo das inflamatórias do intestino. "provavelmente provocada por desregulação do sistema imunitário" é que não. Isto é: a doença é consequência de uma desregulação do sistema imunitário. O que não se sabe ao certo é o que provoca essa desregulação. Existem 3 factores possíveis (genético, ambiental, microbioma), mas não é chapa cinco para todos, logo, não se pode considerar como sendo essas as causas, mas sim factores que têm um impacto no desenvolvimento deste tipo de doenças.

 

2) "A doença de Crohn inicia-se mais frequentemente na segunda e terceira décadas de vida, mas pode afetar qualquer faixa etária"

Doença de Crohn atinge sobretudo a faixa etária dos 15 aos 35. E sim, pode acontecer em qualquer faixa etária, embora o diagnóstico depois dos 35 aconteça em número menor, do que por exemplo a Colite Ulcerosa que tem um novo pico de incidência/ diagnóstico acima dos 60 anos.

 

3) A doença de Crohn habitualmente causa diarreia, cólica abdominal, frequentemente febre e, às vezes, sangramento retal.

Estava tudo a correr até à parte do rectal. Ora... uma coisa é sangrar pelo CU, outra cousa é sangrar do CU! O sangramento pode ocorrer, dependendo de onde estiver a inflamçao. Ora, como a senhora bem escreveu, Crohn é mais comum na zona final do intestino delgado (também conhecido como íleo) LOGO, o sangramento rectal no Crohn só acontecerá se a inflamação estiver no recto. Não é do tipo: tenho Crohn no intestino delgado e sangro do cu, ok?

 

3) "Aftas - Assemelham-se a ferimentos ulcerativos. Desenvolvem-se normalmente durante os períodos de inflamação ativa do intestino. As feridas normalmente desaparecem quando a inflamação é tratada."

Assemelham-se a ferimentos ulcerativos porque adivinhem: não são aftas, são mesmo úlceras. E porque é que desaparecem quando a inflamação é tratada? Porque o Crohn pode afectar qualquer parte do tubo digestivo, desde a boca ao ânus. Ter aftas não é sintoma que tem Crohn ou que vai desenvolver Crohn, ok? Por isso escusam de ir ao médico com a boca cheia de aftas e pedir colonoscopias.

 

4) "Febre - A febre costuma ocorrer durante semanas ou até meses antes do aparecimento dos sintomas da doença de Crohn. Quando a inflamação intestinal é tratada, a febre normalmente desaparece."

Febre é sinal de uma inflamação ou infecção. Portanto não aparece antes da inflamação. Se há febre é porque há inflamação. E sim, desaparece quando a inflamação é tratada porque deixa de existir inflamação. Do catano, não é?

 

5) Artrite - A artrite afeta cerca de 30% das pessoas com a doença de Crohn

Se calhar tenho que voltar à escolha. 1 em cada 3 doentes com doença inflamatória do intestino desenvolvem patologias associadas do foro reumatológico e dermatológico. Aliás já escrevi no blog alguns posts sobre o assunto recentemente. As patologias de foro reumatológico (adivinhem) são várias, logo dizer que 30% tem artrite como sendo um sintoma da doença é errado. Ou seja, 33% dos pacientes têm uma manifestação extra intestinal, sendo as mais comuns artrite, eritema nodoso e uveíte. Logo, daqui partir para 30% têm artrite é no mínimo estranho para não dizer: mentira! Ou então alguém tem que voltar às aulas de matemática e estatística….

 

6) Sintomas de pele - Os doentes podem desenvolver erupções cutâneas ou doenças fúngicas dolorosas e avermelhadas na pele.

Idem que o número 5. Acrescido que não é um sintoma: é uma consequência da doença! Post do Escadinhas sobre o assunto para mais informação.

 

7) Sintomas oculares - Os olhos podem ficar inflamados - vermelhos, feridos e sensíveis à luz.

Idem que o número 5. Acrescido que não é um sintoma: é uma consequência da doença! Post do Escadinhas sobre o assunto para mais informação.

 

8) Aparecimento de úlceras - Por vezes a inflamação e as úlceras podem penetrar nas paredes dos intestinos, formando um abscesso. Poderá também se formar uma conexão anormal com outras partes do intestino ou de outros órgãos, o que é chamado de fístula. Consulte um médico se estiver a experienciar alguns destes sintomas!

Mas estamos a falar de úlceras, abcesso ou fístulas? E consultar o médico se experienciar alguns destes sintomas? Ó senhora: úlceras dentro do intestino só se for com visão raio-x do Super Homem, porque nos dias que correm só com colonoscopia ou exame de cápsula para as ver (que para sua informação as úlceras dentro no intestino são a inflamação). Os abcessos não se formam dentro do intestino a não ser que seja um milagre. E não, abcessos não são pólipos e pólipos não são sintoma de Crohn.

 

Note-se que não sei quem é a Sr.ª Liliana Lopes Monteiro que assina o texto, mas tenho algumas certezas:

1- não sabe o que é uma doença inflamatória do intestino, nem Crohn, apesar de ter lido uma coisas sobre o assunto;

2 – Não leu o livro "conviver com uma doença inflamatória do intestino". Se leu, duvido que o tenha compreendido

3 – O número de pessoas que vai começar a correr para o médico a achar que tem Crohn vai certamente aumentar.

4 - Apesar de algumas incorrecções, louvo o esforço em divulgar mais este tipo de patologias e a tentativa de as explicar. E já sabem: há sempre médicos specialistas disponíveis a verificar os textos antes de serem publicados! Não queremos lançar o pânico, certo?

 

 

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