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Quando o corpo e mente andam desfasados

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Provavelmente uma das coisas que mais me custa aceitar em ter uma Doença Inflamatória do Intestino (DII), é ter que aceitar e lidar com o facto que o corpo e a mente andam desencontrados. É ter um cérebro perfeitamente funcional, mas o corpo recusar-se a fazer seja o que for.

Tenho dias que confesso, sinto-me presa numa carcaça velha. O meu corpo não corresponde à minha mente, nem à pessoa que eu sou. Há dias que é demasiado cansativo ter que gerir o que tenho para fazer com a energia que o meu

corpo tem. Há dias que o corpo só quer estar enroladinho num canto da cama sem fazer nenhum e a lamentar-se das dores que tem ou da falta de energia, e a mente está ali toda espevitada e cheia de ideias para pôr em prática.

Em mais de 10 anos de doença, este aspecto sempre foi o mais difícil de lidar e o que ainda me deixa perto das lágrimas. E é difícil para os outros aceitarem que digo “Eu até queria muito fazer isso, mas não sei se consigo” porque já sei que se num dia for mais activa, nos dois seguintes vou pagar o preço. Por vezes os outros não aceitam que eu não consiga encontrar-me com eles porque já tenho duas ou três coisas que tenho mesmo que fazer e que isso já me vai esgotar não deixando espaço para muito mais. E a mim custa-me aceitar que não possa fazer essas duas ou três coisas mais encontrar-me com quem me quer bem.

Outras vezes é luta é mesmo de mim para mim. Quem me foi seguindo nas redes sociais, sabe que estive de férias na Sicilia, supostamente para descansar. Mas logo no segundo dia achamos que era assim espectacular fazer um percurso no parque natural de 7kms (para ir mais 7kms para voltar). Não aguentei. Acho que fiz uns 3 a 4 kms num sentido. Depois regressar. Passei dois dias que nem me conseguia mexer (e não foi pelos músculos emperrados, foi mesmo com as dores articulares que tomaram conta de mim).

Passado uma semana, quisemos subir ao Etna. Havia várias opções de percurso, mas obviamente que os mais interessantes implicavam caminhadas, não muito longas em distância, mas mais desafiantes pela inclinação da montanha e do terreno. Foi difícil ter que admitir que não iria conseguir fazer uma caminhada de 4horas, montanha acima e abaixo, porque isso implicaria um esforço titânico para mim e dores excruciantes nos dias que se seguiriam. Foi difícil estar ao lado do Mais Que Tudo, super mega fit, e por minha causa condicioná-lo a ter que fazer o percurso da terceira idade “teleférico + autocarro”. E pior ainda, foi quando iria no teleférico e no autocarro, ver terceira idade fisicamente mais robusta do que eu. As lágrimas rolaram bochechas abaixo. Custou. Custa-me.

A dicotomia de estar presa numa carcaça velha que se definha antes do tempo, admito: é uma das coisas que mais me custa na porra da DII. E tem dias, tem momento que esta discrepância é tão grande que só me apetece trocar de corpo e recomeçar do zero.

 

Mais alguém com dias assim?

 

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