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O que eu descobri hoje: Eu faço tratamentos paliativos!

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Foi-me dito (não interessa por quem) que pessoas com Doenças Inflamatórias do Intestino fazem tratamentos paliativos, que são altamente prejudiciais à minha condição (basta ler a bula para saber que têm lactose - malvados!); que colocam as defesas a 0 (sim, a zero) e que por isso a cannabis é uma boa alternativa aos tratamentos prescritos. 

 

Sabem aquela série de posts que escrevi que começavam por "A estupidez não tem limites"? Bom, esta é um perfeito caso. ALguém que não faz a ponta de um corno do que é uma Doença Inflamatória do Intestino, do que se tratam e a razão se faz certos tratamentos ou como funcionam. Provavelmente cortesia de muitas horas  de Dr. Google e páginas cheia de desinformação (para não dizer tretas) que a pessoa perdeu tempo e vida a ler. 

 

Confesso: não sei nem por onde começar.... Talvez por partes porque isto é tanta conta para digerir. 

 

 

1) Tratamento paliativos

Este tipo de tratamento é facto dado a situações clinicas que não têm cura, mas que também significam que a pessoa vai morrer não tarda nada e por isso estes tratamentos (também conhecidos por tratamentos de conforto ou cuidados de suporte) não têm qualquer objectivo curar. Apenas dar alguma qualidade de vida ao paciente que está mais para lá do que para cá. De facto, os tratamentos para as Doenças Inflamatórias do Intestino (incluindo a minha magnifica Colite Ulcerosa) não tem cura, assim como os diabéticos, por exemplo, ou eplepsia. Eh pá: vai-se a ver está meio mundo em tratamentos paliativos! C'um caraças! Esta pessoa abriu-me os olhos! Not!!!!! Asseguro-vos que estou vivinha da silva, mais para cá do que para lá e que nenhum tratamento destinado ao um Crohn ou a uma Colite Ulcerosa (ou um diabético ou um epiléctico) é um tratamento paliativo. 

Senão acreditam em mim, basta ver a definião da Organização Mundial de Saúde de 2002 para cuidados paliativos: acções voltadas para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes e familiares que enfrentam problemas associados com doença que ameaça a vida, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação correcta e promovendo o controle da dor, alívio de outros sintomas, suporte psíquico-espiritual e social que devem estar presentes desde o diagnóstico até o final da vida. 

Uma DII é fodida, mesmo, mas só ameaça a vida de alguém a falta de tratamento adequado para a mesma, ok?

 

2) Lactose nos comprimidos basta ver a bula!

É verdade que uma grande parte dos comprimidos têm lactose na lista de ingredientes (ou seja, a lista de excipientes). Contudo, são em doses muito reduzidas e só colocam um risco a quem é intolerante a 100% à lactose. 

É um facto que os doentes com uma das doenças inflamatórias do intestino desenvolve intolerância à lactose, ou seja, não consegue digerir a lactose (o açucar do leite) na sua totalidade. Isto significa que TODOS são intolerantes à lactose só por terem um Crohn ou uma Colite? Não! Apenas signfica que há uma maior probabilidade de o ser. E mesmo que sejam intolerantes, dificilmente o serão a 100%, o que significa que produtos com baixo valor de lactose (como os iogurtes, o queijo e adivinhem, os comprimidos) são perfeitamente toleráveis. 

Depois há aquele, só aquele, pequeno detalhe, que o medicamento tem normalmente, outras formas de apresentação que não têm lactose. E acreditem: eu já andei a tomar mais de 15 comprimidos por dia e sou intolerante à lactose e não foi por isso que a Colite não se controlou. Bem pelo contrário!

 

3) Os tratamentos para DII deixam as defesas a zero

bom... já há umas semanas escrevi aqui sobre os mitos da imunidade e dos imunossupressores. Pelos vistos há quem não tivesse lido. Vamos lá outra vez, ok?

Se os tratamentos vos deixarem com imunidade a zero ou perto de zero, teriam que viver numa sala limpa num hospital ou dentro de uma bolha de plástico, sem qualquer contacto com o mundo, nem contacto humano, nem sequer respirar fora dessa sala limpa ou bolha. Ninguém poderia estar convosco sem sem com luvas e mascaras e não vos poderia tocar. Até hoje não conheci ninguém com uma DII (e olhem que eu conheço uns largos milhares de doentes) que tenha passado por isto. (Se conhecerem uma pessoa com Crohn ou Colite que tenha passado por isto, por favor, digam-me). 

É um facto que os tratamentos imunossupressores (que são apenas uma parte dos tratamentos disponíveis para as DII) baixam o sistema imunitário mas isso não significa que as pessoas fiquem em perigo, significa apenas que têm que ter alguns cuidados diários , alguns cuidados adicionais no geral (não tomar vacinas vivas; não estar em contacto com pessoas doentes, por exemplo) e que têm que ter uma monitorização próxima pelo médico que as acompanha. 

 

4) Os tratamentos são altamente prejudicias à minha condição

Não sei se ria ou se chore! Porque os tratamentos que faço, e os tratamentos que existem e que são prescritos pelo gastroenterelogista são os ÚNICOS que funcionam! É graças a esses "tratamentos prejudiciais" que eu e muitos milhares, aliás, milhões de pessoas no mundo inteiro conseguimos ter uma vida (quase) normal. É graças a esses "tratamentos prejudiciais" que eu consigo sair de casa sem fraldas; que consigo trabalhar; que consigo viajar; que consigo ser activista pela sensibilização e informação (correcta) das Doenças Inflamatórias do Intestino!

 

5) Cannabis é que é

Quem me conhece sabe que sou cautelosa com todas os tratamentos milagrosos que surgem e com as noticias que saem, a maioria delas clickbaites, ou deturpadas daquilo que é a realidade dos estudos.

O comentário que recebi de que "cannabis é que é e os outros tratamentos são merda" veio no seguimento de um estudo sobre o uso de um caniboide muito especifico que se revelou PROMISSOR no controlo de inflamação em ratos. Agora vamos lá por partes:

 

a. Cannabis tem n diferentes tipos de canniboides. Um revela-se promissor. Um. Promissor. Em ratos. 

 

b. O facto de ser promissor em ratos não significa 1) que seja de facto eficaz e seguro (daí dizerem que é promissor); 2) que vá funcionar em humanos. Milhares de possíveis tratamentos têm resultados espectaculares em ratos, e depois quando se tenta em humano... upsss! São flops e tudo tem que recomeçar do zero. 

 

c) O facto de ser promissor, significa que é uma linha de investigação, mas que muito mais estudo tem que ser feito até se poder concluir que é eficaz e seguro para testar em humanos. E depois claro é: tem que provar ser eficaz em humanos. 

 

Por isso, podem anular a vossa encomenda de óleo de cannabis, ou apagar o vosso charro. Há muito ainda a ser estudado no que diz respeito à cannabis e aos fins medicinais. É garantido que ajuda no controlo da dor por exemplo, mas nada garantido que funcione a nível da inflamação provocada por uma doença auto-imune. E sim, tem efeitos secundários, seja que canabis for, incluindo neurológicos. Portanto, ponham a ronha na garrafa de champanhe e esperemos por resultados CONCLUSIVOS em vez de PROMISSORES para festejar!

 

 

 

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