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Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

03 de Dezembro, 2016

#IBDVisible Qual é a coisa mais rápida do mundo?

Vera Gomes

Corrida WC.jpg

  O meu pai contava-me uma anedota quando eu era miúda. Qual é a coisa mais rápida do mundo. O francês dizia que era a electricidade. Carrega-se no botão e já está. O Inglês dizia que era o Pensamento! Inesperadamente lá estava ele! E o nosso Zé Tuga Alentejano dizia: A diarreia! Não há tempo para pensar e muito menos para acender a luz!

 

E como o Zé Tuga Alentejano tem razão! Na minha primeira grande crise tive alguns acidentes, mas sempre à porta de casa (literalmente) e por isso fácil de controlar os danos. Na minha crise actual, que mete as minhas crises anteriores no bolsinho pequenino das calças e ainda sobra espaço, os acidentes foram muito mais, muito maiores e muito imprevísiveis. 

 

Soltemos a tripeira que há em mim, e chamemos as coisas pelos nomes: perdi a conta às vezes que me caguei pelas

pernas abaixo no último ano; perdi a conta às cuecas borradas que deixei em casas de banho públicas; perdi a vergonha, porque quem tem esta doença, vergonha é coisa que não pode existir!

 

No escritório, no supermercado, na rua, em casa, no metro, no restaurante. Enfim, as situações foram tantas que não tive outra opção: comecei a usar fraldas ou como eu carinhosamente gosto de lhes chamar "Cuecas do Cupido". É embaraçante? Sem dúvida! Constrangedor? Sem dúvida! Foi acima de tudo um golpe psicológico muito grande: senti que tinha perdido toda a minha dignidade, como pessoa e como mulher. Evita ao máximo que o meu parceiro me visse com cuzinho de Cupido e tentava não as usar em casa numa esperança de conseguir lidar melhor com o assunto. Mas ou era as Cuecas do Cupido ou deixava de sair de casa. Sinceramente, é como dizem os franceses: é escolher entre a cólera e a peste. Mas não sair de casa seria ainda muito pior. Há que manter autonomia ao máximo, mesmo que implique adaptar a situações menos boas. 

 

1) O meu primeiro acidente

Lembro-me perfeitamente. 2007. Ainda na senda do diagnóstico. Levei uma amiga a casa em Benfica. Assim que entro no Eixo Norte Sul sinto que ou chego a casa rapidamente ou os belos estofos cinza claros em pele do meu carro ganharão uma nova cor. Sigo em excesso velocidade até Alcantara a rezar para não apanhar policia. Também se a polícia me parasse iria perceber o porquê da pressa rapidamente. Estaciono o carro, deixo porta do carro aberta com tudo lá dentro, levo as chaves na mão e corro para a casa. Tudo sob controlo apesar da urgência. Respiro como se tivesse em trabalho de parto, mas estou quase a chegar ao meu objectivo. Meto a chave na porta, rodo a chave e.... e nesse preciso momento percebo que aquele esforçozinho de nada para rodar a chave foi a morte da artista. Senti algo quente e húmido num sitio que deveria sentir quente e seco. Directa para o chuveiro foi a melhor opção. 

 

2) O acidente mais angustiante

Há alguns meses que andava numa montanha russa. Tão depressa estava bem, como a seguir nem por isso. Tinhamos estado duas semanas em Cuba. E soube tão bem aquele dolce fare niente. Tinha tido algumas "urgências" mas sempre sob controlo. Depois de um voo de 13h, fizemos escala em Madrid. Assim que saio o avião digo: "preciso de uma casa de banho asap". Acho que nem tive tempo de acabar a frase. Tarde demais. Estava de calções... tinha uma muda de roupa na bagagem de mão, mas não havia wc em lado algum. Em vez disso, esperava-me uma longa fila para a verificação dos passaportes seguida de uma longa fila para as verificações de segurança, seguida de uma caminhada de 10 minutos até ao wc mais próximo. Pareceram hoooooras! Literalmente com os meus calções verdes borrados e ensopados e a tentar que não fosse pernas abaixo. Pus um casaco de malha na cintura para "esconder" a desgraça. Pedi encarecidamente na verificação de segurança para não o tirar. A senhora deve ter achado que estava suja do periodo. Não fez perguntas eu também não expliquei. Chorei desalmadamente depois de me limpar. É uma sensação terrível. Foi o primeiro grande acidente em público e sem possibilidade de controlo de danos....

 

3) O acidente da aceitação

Usei Cuecas do Cupido durante dois meses. Era a única forma de ter uma vida o mais normal possível. Nesses dois meses tive uma viagem de trabalho de 2 semanas à América do Sul que requereu alguma preparação prévia. Num dos dias anteriores à viagem, tive uma reunião numa Embaixada ao pé de casa ao fim da tarde. Decidi por isso, quando sai da Embaixada ir para casa. São cerca de 10 minutos a pé no máximo, numa rua residencial sem qualquer tipo de comércio. E adivinhem quem chegou? A emergência, pois claro! Ia ao telefone com um amigo que me perguntava como estava. E eis que não deu mais: começo a sentir tudo a sair sem qualquer tipo de controlo possível. Começo a rezar para as minhas fabulosas cuecas Cupido aguentarem tamanha obra. E tendo em conta o sitio onde me encontrava a única opção era aceitar e continuar a andar. Foram uns 5m em que o intestino mandou para fora tudo e mais alguma coisa sem eu conseguir fazê-lo parar. E continuei a andar até chegar a casa... Há coisas que não conseguimos mudar. É aceitar e continuar a andar em frente...

 

Ilustração: João Falcato

Digitalização: Paulo Solano Photography

 

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