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Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

#IBDVisible Bacalhau seco, ou como ter uma história cómica para contar

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Até conseguir o diagnóstico do que se passava comigo e nos anos que se seguiram até hoje, perdi a conta ao número de exames médicos que fiz. Confesso que não me lembro de todos os nomes dos exames. Ainda assim, há alguns que não me esqueço ou pela experiência em si ou pela "aventura" que foi. Partilho convosco apenas um episódio, porque acreditem, a lista é longa. 

 

A minha primeira crise foi longa. Demasiado longa. Como é hábito o meu corpo insiste em não reagir à medicação. A certa altura, foi-me pedido para fazer um TAC adbominal com contraste. Literalmente de um dia para o outro. Perguntei se precisaria de preparação (já a pensar no horror da preparação para as colonoscopias) e disseram-me que não. Oh Joy! Oh wonder! No dia seguinte fui para o Hospital com a minha mãe e fui informada que teria que beber "um liquido" e que só podia fazer o exame depois do ingerir. Passaram-me uma garrafa de 1,5lt de água para a mão. Pensei: "nunca mais saio daqui!" Ingerir liquidos num curto espaço de tempo não é de todo um dos meus pontos fortes... O pior estava para vir... O sabor era absolutamente horrível! Ao fim de 1/4 da garrafa sentia-me pronta para começar a

vomitar. A auxiliar a perceber o meu desespero coemçou a meter conversa e a tentar "animar-me" até que diz: "sabe, eles dizem para misturarmos sun quick, mas eu acho que ainda deve ser pior, não?!" Se olhar matasse a mulher teria morrido logo ali. Uma forma de esconder o sabor e ela ainda achava que não devia resultar?! Bom, sunquick laranja para dentro da garrafa e a coisa lá foi goela abaixo. 

 

Preparação feita, foi hora de continuar o resto. Entrar para o cubiculo e seguir as instruções: retirar APENAS as calças. Assim fiz. Estavamos em Maio, naquela altura que nem é quente nem é frio.... Lá fiquei sem calças, meias de vidro pelo joelho e mocassins nos pés. Entrei na sala de exame e deitei-me na maca sem pensar muito na triste indumentária que trazia. Agulha aqui, autocolante li, fio acolá, eis que vem uma enfermeira com uma mini almofada transparente na mão com um tubo numa das pontas e diz-me: "Ah! Não tirou as cuecas! tenho que lhe pôr o tubo no rabo e insuflar ar no seu intestino." Oi?! Tubo no cu e ar lá para dentro?! Como diz?! Nem tive tempo de dizer nada já a senhora me estava a tirar a roupa interior e a preparar-se para me enfiar o tubo. A única coisa que lhe consegui dizer foi "cheia de ar já eu estou. Se continua a meter ar lá para dentro vai ter que me fazer o exame na casa de banho!". A mulher lá parou e deixou-me tranquila. Comuma almofada no meio das pernas e um tubo enfiado no dito. 

 

Tudo a postos, vamos lá fazer o exame!. Deitada de costas, braços estendidos para trás da cabeça. fios e agulhas e sei lá mais o quê. Eis que vem um enfermeiro com uma seringa: "Temos que lhe injectar contraste. Vai sentir um sabor metálico na boca e ardor na vagina. Não se preocupe que é normal". Uhm?  Mas as surpresas não acabam?! O homem lá injectou o contraste e meus amigos: o sabor metálico na boca confere mas o ardor na vagina não era ardor: imaginem o maior incêndio que Portugal já viveu e nem se lhe compara. De repente perguntam-me: Como se sente? E eu lá respondi: "um bocadinho zonza". Reparei que a lingua não respondia lá muito bem aos meus comandos. E eis que de repente me vejo rodeada de gente vinda sabe-lá de onde, tudo de volta de mim, mete instrumento clinico, tira cenas, tudo assim uma bocado esborratado porque comecei a ter uma vontade IMENSA de ir à sanita. Rodeada daquela gente toda só pensva: a triste figura que uma pessoa faz quando se está doente. Aqui estou eu numa sala de exame, despida da cintura para baixo com meias de vidro pelo joelho, mocassins, um tubo enfiado no cu e deitada numa maca tipo um bacalhau a secar ali nas praias da Nazaré....

 

Mal me soltaram de tudo o que era fio tive que ir a correr para o wc. A minha mãe que esperada do lado de fora da sala de exame, percebeu que tinha terminado pelo barulho no wc. Lindo! Depois o desafio foi conseguir chegar a casa: tive diarreias no resto do dia. Não só perdi 6kgs nesse dia e 2cms de perimetro na anca (sim, eu medi. Ainda tinha os 27kgs que tinha engordado com a cortisona), como fiquei com a pele do rabo queimada pelo contraste. A minha mãezinha (abençoada mãe) lá me despejava Halibut, mas nem se podia esfregar. Levou-me uma série de dias até conseguir que a pele recuperasse e eu recuperasse o meu andar normal. E sentar? Disso nem é melhor falar.... ;)

 

Ilustração: João Falcato

Digitalização: Paulo Solano

 

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