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Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

23 de Junho, 2020

As palavras que nunca vos disse

Vera Gomes

 

Post para Instagram Simples Minimalista (3).png

 

Morreu Pedro Lima. Durante o fim de semana as redes sociais dividiram-se entre o transtorno e a incredulidade como é que alguém (aparentemente) feliz foi capaz de se suicidar. Houve até quem, no alto do seu sofá e por detrás de um ecrã, bradasse alto e bom som, que era um cobarde por deixar assim os seus 5 filhos (a mulher que se lixe porque claramente nesta equação, só os filhos é que interessam).

Pensei muito antes de escrever o que se segue, até porque algumas coisas, nem a minha própria família as sabem. Só algumas pessoas muito próximas e em quem confio o suficiente têm acompanhado o meu percurso e as minhas lutas.

Quando se tem uma doença mental, não significa que se seja maluquinho! Longe disso. Ter uma depressão, sofrer de ansiedade, ataques de pânico, distúrbios de personalidade, não significa que se seja maluquinho. Simplesmente a nossa mente, por uma série de factores funciona de forma diferente.

Fiz terapia em 2004/ 2005 um par de anos depois de um divórcio nada simpático. Fui vítima de violência doméstica e fiquei um caco. Até ao momento que já não tomava banho, não fazia absolutamente mais nada do que ir em modo automático para o trabalho. Já tinha passado uma fase medicada, mas sinceramente, não era opção para mim porque não conseguia ser minimamente funcional e ficava ainda mais deprimida por isso mesmo. Resolvi por isso recorrer a psicoterapia. Os meus amigos, a minha família, o meu namorado da altura, apenas souberam que eu estava a fazer terapia semanal, quase 4 meses depois porque, a caminho de uma das minhas sessões sofri uma tentativa de violação.

Quando se está deprimido, “em baixo”, acreditem, não se anda com um altifalante a anunciar o estado em que se está. Bem pelo contrário. Esconde-se tão facilmente, que são raras as pessoas que percebem que algo não está bem.

Tive alta ao fim de 12 meses de sessões. Aprendi muito sobre mim, a identificar sinais de alarme, a gerir o meu dia a dia, com a indicação de voltar caso não conseguisse gerir.

Os anos passaram-se. Muitas coisas aconteceram: um diagnóstico de doença crónica; uma empresa falida; uma mudança de país; uma crise da minha doença de caixão à cova; problemas profissionais; a morte do meu pai. Foram anos de momentos em versão cocktail explosivo. Cheguei novamente ao momento em que tinha discussões internas comigo mesma sobre coisas tão básicas como “porquê tomar banho? Porque é que vou tomar banho e gastar energia que não tenho só porque é esperado que tomemos bango diariamente?”. As coisas foram agravando-se. Deixei de acreditar em mim em todos os sentidos: como pessoa, como mulher, como profissional. Cheguei a um ponto que nem um email, por mais simples que fosse, enviava sem pedir a alguém que o visse.

O meu lado racional reconhece a parvoíce que é sentir-me assim: tenho amigos magníficos, tenho um vida financeiramente confortável, um homem ao meu lado que me ama, um cão doido que me segue para todo lado, provas mais que dadas que sou uma pessoa determinada, ousada e com mérito do que conseguiu e no que faz. Mas o meu lado emocional… esse… eu perdi completamente o controlo. O meu lado emocional diz exactamente o oposto e começou a ganhar a batalha todos os dias, e a ganhar terreno e a ser castrador.

Desde Fevereiro que faço duas sessões de psicoterapia, semanais, via Skype com alguém que me tem ajudado imenso. Um dia de cada vez. Os desaires continuam, o risco de voltar a estar no fundo do poço existe. E ainda nem a meio do poço vou! E acreditem que é preciso muita energia e força para tentar não baixar os braços e desistir. Porque há dias que por muito que se tente, não se consegue manter a cabeça fora de água, nem tão pouco estar à tona da água.

O que aconteceu com o Pedro Lima poderia ter sido eu. Poderia ter sido um dos que está a ler este texto. E não é ser cobarde: é estar cansado de remar sem sair do lugar, é não se ver opções, é só ver becos sem saída. E não, não é ser pessimista, nem optimista. É mesmo como a forma como nossa mente vê as coisas. Por isso, em vez de gritarem “cobarde”, em vez de criticarem (que é precisamente por isso que faz com que não vejam a realidade à frente dos vossos olhos): preocupem-se genuinamente. Disponham-se a verdadeiramente ouvir o outro. Pratiquem a empatia! Sejam mais empáticos! Até porque... não há super heróis! E ninguém é super forte todos os dias, a todas as horas!

E melhor do que eu, ouçam o Nuno Markl. Porque ele conseguiu dizer aquilo que eu não tinha palavras para expressar.

 

 

 

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