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Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

07 de Julho, 2008

É longo, mas verdadeiro

Vera Gomes

Uma arma ao alcance de todos.

Miguel Esteves Cardoso

Audaces fortuna juvat. A sorte protege os audazes, lá diziam os romanos - mas esses eram loucos. Para o Mulherengo, a audácia não tem nada a ver com sorte.


Para se ser um bom mulherengo, são necessárias algumas qualidades que não dependem de nós e que não podemos aprender ou fingir. Ser giro é a mais óbvia. As mulheres desmentem, mas mentem. E há outras qualidades, físicas e mentais que, ou se tem, ou não se tem. Destas, por conseguinte, nem vale a pena falar. Felizmente, há armas que todos os mulherengos podem usar. Uma das mais poderosas tem a vantagem de funcionar melhor quando o homem não é muito giro. É tão importante e tem tantas aplicações, que merece um capítulo à parte: é a audácia.


A audácia impressiona sempre as mulheres, por muito desinteressadas que estejam. Faz parte do restritíssimo grupo de características que consideram masculinas e às quais acham graça. Pode ter-se cinco anos de idade e chegar ao pé de uma mulher de 30 e anunciar-lhe - de queixo decisivo - que, mal tenha 16 anos, tenciona casar com ela. E que ela não se preocupe, porque os 11 anos que faltam passarão num instantinho. E muito menos ter medo de que ele mude de opinião, até porque ele prefere as mulheres com 40 anos.


A audácia não é valentia nem lata, porque é tranquila e bem-educada. O homem valente arranja coragem para convidar uma mulher inacessível para jantar, mas é empedernido e está preparado - convenientemente para ela - para a rejeição. O latoso é um pau-para-toda-a¬-obra e um fanfarrão. Produz nas mulheres a impressão desagradável de ir a todas, a ver o que cai, imune às rejeições e mais empenhado no sexo feminino em geral, do que nesta ou naquela representante.


A audácia é outro bicho. Não implica coragem - é apenas a constatação de uma verdade; o cumprimento de um destino. Surpreende não só por ser explícita, mas por ser calmamente transmitida como um facto, uma notícia confirmadíssima: "É só para avisá-la de que a amo e que vou fazer tudo para que um dia me ame também." As mulheres nunca esquecem uma audácia e, lá nos labirínticos arquivos românticos que mantêm - onde coexistem amantes possíveis e proibidos; actuais e vindouros; resolvidos e atravessados; em trânsito ou por definir - abrem uma ficha para aquele gesto. Por muito miserável, curta e longe do índice principal que fique. É um princípio. É um registo. É uma referência que se poderá invocar e sobre a qual toda uma literatura se poderá erguer.


A ideia não é cair no goto ou ficar atravessado, ou sequer despertar a curiosidade: é apenas passar a constar do cômputo daquela mulher. Não há expectativas imediatas, e ganância muito menos. Há, quanto muito, uma ambição distante e pouco provável, como ter os tais seis anos e querer ser campeão do mundo de Fórmula 1. É a verdade do desejo que conta e encanta. Tudo o que for além disso, assustará a pretendida e fará precipitar o próprio mulherengo, a quem não faltarão outras mulheres com as quais se ocupar.
A audácia, para ser eficaz, tem de ser inequívoca. Tem características e regras que não podem ser desobedecidas pelo mulherengo.


A audácia é sempre pública. Um único sussurro de confidencialidade mata-a imediatamente. Aquilo que se diz à pretendida pode e deve ser ouvido por toda a gente. Isto é, sem atenção a quem calha estar presente. Claro que o namorado ou marido da mulher está incluidíssimo. Respeita-se o bicho, mas nunca se lhe pede desculpa.
A audácia funciona precisamente porque não faz nada às escondidas. Não é uma tentativa de intimidade: é um anúncio de uma intenção; um prenúncio de um futuro. O mulherengo audaz, que contrata um avião para escrever um recado amoroso no céu, nunca se escuda com enigmas. Nada faz para proteger as identidades. Não manda escrever "Eu amo-te, Cecília", mas sim "António Costa Rodrigues está apaixonado por Maria Cecília Neves de Sousa e não há nada a fazer". Esse recado jamais teria um número de telefone ou faria um apelo a quem quer que fosse. Porque a audácia não pode ser utilitária. Tem, por força, de ser descabida e de estar isenta de objectivos imediatos. Não procura qualquer diálogo; não anda a ver se despoleta qualquer respostazinha. É uma declaração. É um documento.
Não é preciso ser-se mulherengo para perceber o perigo destas audácias: e se as outras vêem? Deixá-las. São problemas que terão de ser resolvidos mais tarde. Porque é o facto das outras verem que faz com que aquela goste de ver. É sempre benéfico dar a uma mulher a impressão de que nos estamos a queimar com todas as outras. Elas gostam disso. Sabem que não é assim que funciona (porque as outras mulheres, felizmente, também acham graça), mas gostam à mesma.


A audácia, para além de pública e explícita, tem de ser breve. Diz-se e faz-se o que se tem para apresentar e, mal esteja dito e feito, desaparece-se dali para fora. Tem de haver longos intervalos entre os gestos, para criar alguma expectativa, mas também para demonstrar que aquele amor é sério e definitivo, e que o tempo não lhe faz mossa.


Escusado será dizer que, se a pretendida reclamar ("Então, se estava tão apaixonado, como conseguiu estar dois anos sem me dizer nada?", a vitória já não tardará.


Há uma razão para este espacejamento entre relâmpagos. É o subtexto obrigatório da audácia. Seja na forma "Tu não gostas de mim, mas um dia hás-de gostar", ou na variante "Tu gostas de mim, só que ainda não sabes", é essencial que fique claro que não nos passa pela cabeça que elas gostem de nós.


A audácia é uma teimosia da eternidade. Não é um atrevimento fugaz. É pacientíssima, porque sabe que é só uma questão de tempo. Não é uma insistência monocórdica e chata. Para o mulherengo, a táctica da "água mole em pedra dura" é o recurso desesperado dos stalkers. Se a pedra é dura, mais eficaz será um jacto de magma incandescente, de três em três meses. Ou anos.


Resta dizer que os gestos de audácia têm de ser concebidos de maneira a não haver dúvidas que se dirigem àquela mulher e apenas àquela mulher. Se possuírem o mais leve cheirinho de aplicação colectiva (ou de possibilidade de repetição), não prestam e serão mal recebidos, selando para sempre aquela sorte.


Um gesto de audácia é um compromisso unilateral - a nada obriga por parte da mulher - mas é especificamente dirigido àquela pessoa. É esta abnegação de contrapartidas, e a estrondosa abertura com que é proclamada, que dão força à audácia e fazem dela uma das grandes armas dos mulherengos de longo prazo.
Use-a com a alma cheia e sem cuidado!


in Maxmen, nº 84, [Lisboa], Março de 2008, pp. 40-41