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Escadinhas do Quebra Costas

(con)Viver com Doenças Inflamatórias do Inflamatórias do Intestino. Aventuras, desventuras e muita galhofa! Que a rir custa menos e por isso "Sou feliz só por preguiça."

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15 de Março, 2006

A arte do Amor na actualidade por MEC

Vera Gomes
Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal.

Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras. «I love you» ou «Je t’aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra «amante», a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não- sei- quem é «amante» de outro, e, entende-se logo, maliciosamente o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco - lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura.

«Amoroso» não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo Quem disser, «a minha amada» - ou, pior ainda, «o meu amado» - arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. «Amável» nunca quer dizer capaz de ser amado, e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre a frase no pretérito (« Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente «um amor» é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. ( O que está a acontecer com o adjectivo «querido» constitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.)

Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar «amigas» ás namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras «namorado» e «namorada». Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» - dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas . E, também assim , como se não lhes bastasse dar cabo do «Amor», vão contribuindo para o ajavardamento semântico da «Amizade».

Isto tudo em público –claro- porque, em particular, a sós, funciona o síndroma plurissecular do «só- nós- dois -é- que- sabemos» e os portugueses tornam-se pinga - amores ao ponto de se lhes aconselhar vivamente a utilização de coleiras de esponja muito grossa. Nisto, o sexo forte é bastante mais vira – casacas que o fraco. Em público, são as «amigas», o Guincho, os «drinques» e as apreciações estritamente boçais do sexo oposto. Dêem-lhes, porém, cinco minutos a sós com a suposta «amiga» e depressa verão todos os índices aceitáveis de pieguice, choraminguice e «love – and- peace» babosa e radicalmente ultrapassados; ao ponto de fazer confundir a Condessa de Segur com Joseph Conrad. As infelizes «amigas» reprimem com louvável estoicismo o enjoo, e aconselham-lhe a moderação. As mais estúpidas não compreendem e vão depois dizer ás amigas que os namorados têm feitios muito complexos, porque quando estão acompanhados são uns brutos do bilhar grande, e quando estão sozinhos transformam-se em donzelas delicodoces, inexplicavelmente ainda mais nauseabundas do que elas.

A retracção épica a que os portugueses se forçam no uso próprio das palavras do amor quando o contexto é minimamente público parece atirá-los, ilogicamente, para uma confrangedora cartase de lamechices cada vez que se encontram sós com quem amam. Dizer «Eu amo-te» é dizer algo que se faz. Dizer «Eu tenho uma grande paixão por ti» é bastante menos do que isso – é apenas algo que se tem, mais exterior e provisório. Os portugueses, aliás, sempre preferiram a passividade fácil do «ter» á actividade, bastante mais trabalhosa, do «fazer».

A confusão do amar com o gostar, do amor com a paixão, ou do afecto, tornam muito difícil a condição do amante em Portugal. Impõe-se rapidamente o esclarecimento de todos estes imbróglios. Que bom seria poder dizer «Estou apaixonado por ela, mas não a amo», ou «Apresento-te a minha namorada», ou «Ele é tão amável que não se consegue deixar de amá-lo». Estas distinções fazem parte dos divertimentos sérios das outras culturas e, para poder-mos divertir-nos e fazê-las também, é urgente repor o verbo «amar» em circulação, deixarmo-nos de tretas, e assim aliviar dramaticamente o peso oneroso que hoje recai sobre a desgraçada e malfadada «paixão».