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Da perspectiva e dos Homens

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Este é o milagre da perspectiva: a lonjura faz as coisas pequenas, faz um milagre. Diz-se que o recipiente é maior, é sempre maior do que o conteúdo, e que o contrário não se pode verificar. (...) Mas daqui devem concluir-se mais coisas, a saber:

Coisa número um: num homem pequeno, minúsculo, pode assim caber algo maior do que ele. Dentro do homem cabem mares e paisagens, o infinito, o próprio Deus do Universo, o meu gato que já morreu e de que sinto uma tremenda falta.

Coisa número dois: o Homem é uma janela pequenina. E com isto diz-se tudo o que há para dizer sobre o Homem. Diz-se que é minúsculo e diz-se que é infinito.

 

in, Mil Anos de Esquecimento de Afonso Cruz

Surpresas às segundas de manhã

Hoje utilizei uma outra estação de metro do que a habitual para o trabalho. E eis que para minha surpresa, junto à entrada do metro que fica num pequeno jardim, encontrei isto: 

 

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Uma caixa com livros para quem quiser levar e/ou deixar. Confesso que sorri ao pensar que num país em que chove o ano todo, que a malta nem no verão sai de casa sem casaco, arranjou uma forma de ter livros à disposição de quem passa!

Da ambição

- Sofro desta ansia de não ter, mano. (...)
- Isso é budismo?
- Não. Puro preguicismo.
- Preguiça? Parece-me uma ambição enorme, sobretudo num país onde as pessoas querem ter cada vez mais. (...)
- Talvez tenha razão. Sou preguiçoso, mas sou um preguiçoso com grandes ambições. Se é para não ter, então não quero muito. Se é para não fazer, quero não fazer muitissimo"

in A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa

Dos Impérios

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Nenhum império sobrevive à emoção. Criam-se fronteiras, mas são artifícios, linhas inventadas que podem impedir a livre circulação de bens e pessoas, mas não impedem que as emoções as rompam. (...) Para compreender o império, devemos olhar para um homem qualquer que passe na rua. E veremos que, por mais racional, por mais fronteiras que ele coloque para agir correctamente, mais tarde ou mais cedo sucumbirá à emoção. Se um homem tiver fome, o seu estômago tomará o poder. Nenhuma cabeça, nenhuma ordem será capaz de contrariar a barriga vazia. O império vai ruir. 

 

in O Pintor Debaixo do Lava Loiça, de Afonso Cruz

Das frases

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Todas as frases são abismos e as mais desinteressantes são as que escondem as suas profundidades de um modo mais tenaz. A mente deve ser um pé de cabra para as frases sem interesse (...).

 

in O Pintor Devaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz

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